Já ninguém dá o desconto à FNAC (e a FNAC também não dá o desconto a ninguém)

Nos últimos dias, muitas têm sido as reacções na blogosfera à decisão da FNAC de só oferecer os seus 10% de desconto no preço dos livros (arma com que conquistou a sua invejável quota de mercado) a quem tenha o respectivo cartão de cliente. O blogue da Ler juntou os links todos (aqui) e vale a pena dar uma vista de olhos por este justificadíssimo exemplo de indignação colectiva.
Para não destoar, também eu considero que esta é uma decisão absurda e uma lamentável falta de respeito pelos muitos consumidores que fizeram da implantação da FNAC no nosso país um sucesso fulminante e um case study internacional. Também eu enquadro este “tirar do tapete” (para usar a imagem do Pedro Vieira) como mais um sintoma da decadência da loja, que se reflecte numa crescente massificação do gosto (nunca o termo “supermercado da cultura” lhe assentou tão bem) e no quase desaparecimento de algumas secções (o caso da poesia, referido por Osvaldo M. Silvestre, é gritante).
Ou seja, se a FNAC deixou de nos dar desconto, pelos vistos nós também deixámos de dar desconto à FNAC. E isto é uma oportunidade de ouro para as livrarias que tiverem a inteligência de aproveitar este súbito ataque de cupidez, mascarado de chantagem comercial mesquinha. Sem a cenoura do desconto, muitos leitores não hesitarão em procurar livros noutros lados. E eu estarei entre esses leitores.
Já agora, aproveito para confessar uma coisa. De cada vez que chegava a uma caixa da FNAC e me perguntavam “tem cartão FNAC?”, sentia que a minha resposta negativa despertava um certo olhar de desprezo no funcionário, olhar assassino (decerto treinado em acções de formação) que significava algo como: “Se não tens cartão FNAC, o que é que estás aqui a fazer? Vai-te embora, pá, tu não mereces respirar o ar que circula nesta loja.”
Admito que fosse um exagero meu, uma paranóia como outra qualquer, mas a verdade é que da próxima vez que chegar com uma pilha de livros à caixa e disser que não, não tenho, e não, não quero ter o cartão FNAC, o funcionário passará as minhas compras pelos raios infra-vermelhos com um sorrisinho cruel (decerto treinado em acções de formação). O sorrisinho sarcástico e sacana de quem se vinga de um crime que não cometemos.
Literatura judaica em português
As publicações portuguesas sobre o judaísmo não são muitas, mas podemos ficar a conhecê-las (todas, ou quase todas) através deste blogue.
Os favoritos para o Nobel
Todos os anos, a poucos dias da entrega do Prémio Nobel da Literatura (este ano será a 9, próxima quinta-feira), surgem as listas dos favoritos entre os favoritos. O mais curioso é que as listas não variam muito e há nomes que já têm lugar marcado, como Philip Roth, Claudio Magris e Adonis. Em 2008, a Ladbrokes voltou a ordenar os escritores segundo a lógica dos apostadores a dinheiro (ver lista completa aqui). E o top-10 é este:
- Claudio Magris (3/1)
- Adonis (4/1)
- Amos Oz (5/1)
- Joyce Carol Oates (5/1)
- Philip Roth (5/1)
- Don DeLillo (7/1)
- Haruki Murakami (7/1)
- Les Murray (7/1)
- Yves Bonnefoy (10/1)
- Inger Christensen (14/1)
Resta saber se as possibilidades de Philip Roth, Joyce Carol Oates e Don DeLillo não minguaram subitamente com as disparatadas afirmações de Horace Engdahl, Secretário Permanente da Academia Sueca, segundo o qual «os EUA não participam no grande diálogo da literatura».
No caso desta espécie de ameaça se revelar apenas uma cortina de fumo, pode ser que o Nobel vá para um quarto norte-americano de que se também se fala sempre: Thomas Pynchon. Nesse caso, a Ladbrokes volta a fazer apostas. Será que o autor de Gravity’s Rainbow vai aparecer a 10 de Dezembro em Estocolmo, para receber a medalha e o diploma das mãos do rei sueco, ou manterá a sua lendária reclusão? Neste momento, quem apostar uma libra na presença de Pynchon arrisca-se a ganhar 40.
Diário do Booker (7)

Ao fim de 194 páginas lidas num ápice, é forçoso dar razão a Andrew Holgate, do Sunday Times (citado num dos blurbs da contracapa):
«Unlike almost any other Indian novel you might have read in recent years, this page-turner offers a completely bald, angry, unadorned portrait of the country as seen from the bottom of the heap; there’s not a sniff of saffron or a swirl of sari anywhere… The Indian tourist board won’t be pleased, but you’ll read it in a trice and find yourself gripped.»
É verdade que o livro se lê num abrir e fechar de olhos, é verdade que este retrato da Índia abdica do exotismo (ao ponto de fazer daquele adjectivo, «unadorned», um understatement), é verdade que não há por aqui referências ao açafrão (embora o mesmo não se possa dizer do caril e dos saris, que aparecem pouco, mas aparecem). O importante, porém, está no início da primeira frase. Ao contrário do típico romance indiano candidato ao Booker, esta não é uma história séria sobre as idiossincrasias culturais do sub-continente, nem uma reflexão sobre os traumas pós-coloniais, nem sequer a tão batida história de amor com casamentos por conveniência e segredos passados de geração em geração. Muito pelo contrário. The White Tiger é uma espécie de parábola, divertida e violenta, sobre o lugar da Índia no mundo de hoje. Ou, se quiserem, um olhar sobre o lado podre do suposto milagre tecnológico indiano. Que o protagonista seja um «empreendedor» sem escrúpulos e assassino confesso, tresloucado ao ponto de contar a sua história tortuosa, como se fosse um exemplo a seguir, ao primeiro-ministro chinês (of all people), diz tudo sobre o carácter burlesco da narrativa e o seu tom ostensivamente irónico, desapiedado e sarcástico.
Podia resumir-vos aqui os principais traços da aventura de Balram Halwai, desde as ruas miseráveis e escuras de Laxmangarh até aos néons de Nova Dehli e Bangalore, mas prefiro guardar a sinopse para amanhã. Agora, se me permitem, vou acabar o livro, que está ali a chamar por mim como qualquer page-turner que se preze.
A serpente emplumada, agora com nova pele
Na qualidade de livreiro, Luís Filipe Cristóvão veio a Lisboa jantar e ficou a conhecer o novo projecto da Quetzal. A editora do grupo Bertrand/Círculo de Leitores, dirigida por Francisco José Viegas e Luís Afonseca, vai publicar proximamente livros de José Luís Peixoto, Vasco Graça Moura, Pedro Paixão, Manuel Jorge Marmelo, Marcello Mathias, Rogério Casanova, Paulo José Miranda, Julio Cortázar, Bruce Chatwin, Irvine Welsh, Pedrag Matvejevitch, Filipe Nunes Vicente, Álvaro Uribe e a obra completa de Vergílio Ferreira.
Dizer que o projecto promete muito é dizer pouco.
Frases (feitas com títulos) dos leitores - 8
Lá do Sul, António Manuel Venda, que anda nas últimas revisões do seu próximo romance, envia uma frase curta e uma quilométrica.
A curta:
«Alguns homens, duas mulheres e eu
Em busca
Do amor e outros demónios
Longe de Manaus»
A quilométrica:
«Bom dia, camaradas.
Vamos todos matar Constance,
Alexandra Alpha,
o delfim,
Pedro Páramo,
Martin Eden,
a filha do capitão,
o lobo das estepes,
o livreiro de Cabul,
o professor e o louco;
sei lá:
o velho que lia romances de amor,
o general e o juiz,
o ladrão e os cães,
o homem duplicado,
o grande peixe,
o homem que casou com uma estrela porno,
a família de Pascual Duarte,
4 loiras,
Pobby e Dingan,
Adam, o espertalhão,
o cego de Sevilha,
o homem sentimental.
Até amanhã, camaradas»
Dinis Machado por Anabela Mota Ribeiro
«Dinis Machado foi feliz? Fala o próprio, pelo próprio, e não através de Molero: “Integrei na minha vida o absurdo que a vida a certa altura me pareceu que era. Pensei, quando estiver a envelhecer, tiver doenças, quando a vida se tornar insuportável, quando me chatearem muito, antecipo-me ao meu inimigo. Implica, de facto, uma hipótese de suicídio, nunca a recusei. Mas entretanto criei umas amarras, criei amarras de afecto muito fortes, (para mim são mais importantes as pessoas que amo que eu próprio), e encontro um certo sentido da vida.”
Molero procurava a sua “inocência perdida”, estava mesmo disposto a “dar um ano de ordenado por um momento da sua inocência”, inventa em epígrafe. E Dinis Machado tamborila os dedos na madeira, puxa uma fumaça, confunde-se com os seus personagens, regressa com eles a um lugar onde foi feliz.
(…) O que diz Dinis: “Quando fiz o Molero, a Marília [sua primeira mulher, entretanto falecida] foi a primeira que ouviu. Depois chamei os meus amigos lá a casa, os sete, e fiz a leitura do Molero. Ó pá, esses somos nós, mas como é que tu conseguiste fazer uma coisa tão nossa? Identificaram-se completamente.” Molero c’est moi, “tudo o que criamos é apenas o que somos”, escreve a páginas 20.
Era uma geração de quem, retrospectivamente, se pode dizer que viveu uma felicidade dourada. Inventava a alegria, a comicidade, como fuga e arma essencial para as situações trágicas que a vida nos traz. Uma malta que alugava livros na Barateira, como hoje se alugam dvd’s nos clubes de bairro. Que recitavam poemas uns aos outros no café. Gente de um tempo que deixou de existir. O livro é o testemunho, angustiado-existencialista, dessa geografia e de certa arquitectura que deixou de se praticar.
(…) Dinis Machado nasceu e viveu a vida toda em Lisboa. Nunca foi à América, mesmo que trate Raymond Chandler por tu, e ame Rita Hayworth, tão bela e tão perversa. Foi jornalista desportivo, dirigiu uma revista chamada Tintim que fez de meninos de uma geração amantes de banda desenhada. Na escola, gostava de Português.
(…) “Ainda preservo alguma inocência organizada através do intelecto. Uma inocência que já perdi e que quero recuperar, não sei como. Recuperando a pouco e pouco, nestas tentativas de ser sincero, de ser outra vez o melhor que fui. Um florescimento permanente, uma primavera que foge todos os dias. É estranho como envelhecendo, perdemos tudo.”»
[Excertos de um texto publicado por Anabela Mota Ribeiro no Jornal de Negócios, em Março de 2007]
Diário do Booker (6)
Não há nada mais frustrante do que chegar ao fim de um romance com 738 páginas e perceber que se trata, afinal, de um enorme castelo de cartas prestes a ruir ao mínimo sopro. No Livro Quatro desta saga familiar passada em Sheffield, fecha-se o arco narrativo: depois da chegada dos Sellers, em 1974; da era Thatcher e da greve dos mineiros (1984); é o tempo dos telemóveis, dos centros comerciais, das desilusões definitivas (1994). Philip Hensher mantém a sua estratégia ficcional, que consiste em multiplicar personagens, cenários e picos dramáticos. Infelizmente, essa proliferação é caótica. Estamos sempre à espera que os muitos fios soltos se atem no fim, mas esperamos em vão, porque as últimas 100 páginas, em lugar de esclarecerem o que havia por esclarecer, baralham tudo de novo. Ou então fecham as várias linhas do enredo com soluções óbvias, banais, deitando a perder as muitas subtilezas com que até ali Hensher moldara a vida das suas criaturas. Em dado momento, uma dessas criaturas, Francis, está a fazer as malas para uma viagem a Roma (que não chegará a acontecer) e tira da estante «one, then a second fat Russian novel». A saber: O Idiota e Almas Mortas. Nada disto acontece por acaso. Numa das badanas, afirma-se que o livro foi inspirado «by the expansive scale and webs of relationships of the great nineteenth-century Russian novels». O problema é que Hensher, já se percebeu, está muito longe de ser um Dostoiévski ou um Gógol.
Quem tudo quer, tudo perde. E o que poderia ser um belíssimo romance de 300 páginas, feitos os devidos cortes por um bom editor, transforma-se num épico pesadão que nem sequer cumpre as suas promessas (a crise dos mineiros, um dos supostos temas centrais, dissolve-se rapidamente e o “retrato” dos anos Thatcher acaba por não passar de uma fotografia tipo passe, tremida e com pouco contraste). Há personagens que ficam penduradas – Nick e, até certo ponto, Katherine –; outras transformam-se em caricaturas (Tim); perdem espessura (Daniel); desaparecem de vista (Jane); ou exibem a sua incongruência (Sandra). Mesmo os momentos mais fortes, como a magnífica abertura do Livro Quatro (a paixão obsessiva, para não dizer nabokoviana, de Nick pela filha adolescente do seu patrão) ou a comoventíssima passagem em que marido e filho acompanham Alice durante o seu coma (provocado por uma hemorragia cerebral), mesmo esses momentos em que Hensher mostra aquilo de que é capaz acabam por perder fulgor, ofuscados pelo final patético que o escritor escolheu para o seu mosaico de histórias.
O desastre começa na morte de Tim, que viaja até Sydney para confrontar Sandra com a memória de uma iniciação erótica que o traumatizou: ele, aos dez anos, rosto enfiado entre os seios da então melhor amiga de David, o irmão mais velho. Sandra nem sequer se lembra da cena e desvaloriza a dor de Tim (mas, felizmente para ela, não a sua raiva), conseguindo por milagre evitar um ataque sexual que parecia iminente. Destroçado, Tim caminha até à praia, entra nas águas e avança morte adentro. Se isto já era suficientemente déjà vu, Hensher vai ainda mais longe nas duas últimas páginas, quando Daniel, ao comprar livros a metro para o seu restaurante, encontra um romance novo no meio dos usados. A mulher pergunta-lhe «What’s it about?» e ele responde: «It’s sort of about people like us, I think.» Estão a ver onde é que isto vai parar, não estão? As palavras iniciais desse livro coincidem com as palavras iniciais de The Northern Clemency, claro. E eis de repente o livro dentro do livro, a autoreferencialidade, o mais estafado dos efeitos metaliterários de mise en abîme. Embora desiludido por ver o castelo de cartas ruir desta forma inglória, eu até gostava de ser mais clemente (para evocar o críptico título do livro) mas assim não dá.
***
Depois da surpresa de ver Salman Rushdie fora dos seis finalistas, a casa de apostas Ladbrokes colocou The White Tiger, do estreante Aravind Adiga, no topo da lista de favoritos, com o romance de Linda Grant logo atrás. E são justamente esses dois livros que vou ler a seguir.

Amanhã, na secção de Livros do suplemento ‘Actual’
- Viagem ao Fundo de um Coração, de William Boyd (Casa das Letras), por Luís M. Faria
- A Última Colina, de Urbano Tavares Rodrigues (Dom Quixote), por Luísa Mellid-Franco
- O Cantor de Tango, de Tomás Eloy Martinez (ASA), por Vítor Quelhas
- A Outra Face de Rock Hudson, de Guillermo Fadanelli (Oficina do Livro), por Rogério Casanova
- Fragmentos do Mediterrâneo - Volume 1, de Henrique Garcia Pereira (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
- Revista Relâmpago, n.º 22 (Fundação Luís Miguel Nava), por José Mário Silva
- O Futuro tem 100 anos, de Jorge Mateus e Luís Rainha (Bizâncio), por Sara Figueiredo Costa
Dinis Machado (1930-2008)
O autor de O Que Diz Molero foi-se embora hoje, discreto, de mansinho, tão ao seu jeito. Havia nele um sentido lúdico e uma desfaçatez irónica que serviam apenas para disfarçar, quando disfarçavam, o poço de melancolia que havia lá por trás. Mesmo nos seus romances policiais escritos à pressa e à americana (com pseudónimo camone e tudo), livros alimentares mas nem por isso menos dignos, mesmo nesses sucedâneos de Dashiell Hammett, inventados por um jornalista faz-tudo que papou muitos films noirs nas matinés do Bairro Alto, havia essa espécie de sombra inclinada e abrupta. Podem encontrar um exemplo neste excerto de «monólogo maynardiano» (conversa do assassino profissional Peter Maynard consigo mesmo), quase no fim do reeditado Mão Direita do Diabo (Assírio & Alvim), que li há poucas semanas e sobre o qual escrevi para o número da revista Ler que deve estar quase a chegar às bancas:
«Não estás quieto, Maynard, tens um bichinho dentro de ti, ou então é a febre, a que tens no corpo, e todas as outras febres, as de descobrires coisas que não devias descobrir porque te fazem mal, porque afinal tu és pura e simplesmente o tal rapazinho que nunca deixaste de ser, trémulo perante as coisas, eternamente desabituado de olhar a verdade de frente, e agora já velho, de cidade para cidade, olhando as paisagens que encontras quando te voltas para dentro, os lugares mais desabitados do mundo atrás dos teus olhos fechados. Merda para isto, a febre há-de passar, e então tudo será mais simples, isso de te sentires desgraçado é muito menos profundo do que parece, de resto até acho que resolvo o assunto numa penada e nunca mais penso nisso. Que esperas tu das pessoas, Maynard? Olha para ti próprio e vê lá o que vês. Não olhes, rapaz, não penses nisso, assobia, olha para as pernas das garotas, limpa a arma e segue em frente.»
O velório de Dinis Machado está a decorrer esta noite, na Igreja da Encarnação (Chiado). O funeral sai amanhã à tarde para o cemitério do Alto de S. João, onde o corpo será cremado, pelas 19h00.
Fotografia: Augusto Cabrita
JCP
Este mês de Outubro vai servir para lembrar a figura e a obra de José Cardoso Pires, o escritor que faria hoje 83 anos, se não tivesse desaparecido faz no próximo dia 26 uma década. As muitas iniciativas e homenagens previstas para Lisboa podem ser consultadas aqui. A primeira é já hoje, pelas 18h00, na Casa Fernando Pessoa, onde António Lobo Antunes e Júlio Pomar recordarão o amigo, numa conversa com moderação de Inês Pedrosa.
Frases (feitas com títulos) dos leitores - 7
As participações de hoje têm um aspecto em comum: partirem de livros infantis.
Eis a de Mariana Pinto dos Santos:
«Perguntem aos vossos gatos e aos vossos cães a que sabe a Lua. A maçã e a lagarta. Papá, por favor, apanha-me a Lua.»
«Como passa o Tempo? Imagina… A árvore. A árvore que dava olhos. A árvore generosa. O homem bestial.»
E eis a de Margarida F.:
«Quando a mãe grita “Quiquiriqui”, eu quero estar doente, baralhando histórias tanto, tanto!»
«Discurso do urso: “Onde está o bolo? Já sei! É tudo meu! Eu nunca na vida comerei tomate.”»
Desculpa esfarrapada
Lembram-se do prometido artigo de Luís Miguel Rocha sobre o Papa João Paulo I que o The New York Times ia publicar mas afinal não publicou? Num comunicado transcrito pelos BlogTailors (aqui), LMR justifica-se:
«Fui convidado a escrever um texto de opinião para o NY TIMES, sobre a morte do Papa Luciani, que acabou por não ser publicado. O editor considerou o texto demasiado forte. Seja como for, podem encontrar o texto no site da Putnam. As minhas desculpas pela publicitação de algo que não veio a acontecer. Um texto de opinião não é forte, nem fraco… é um texto de opinião.»
Pois. Acontece que as coisas não são assim tão simples. O e-mail da “assessoria” do escritor, no qual se informava que LMR fora «convidado pelo conceituado jornal New York Times para escrever um artigo de opinião sobre a morte do Papa Luciani», a publicar «na última semana de Setembro», foi enviado a 22 de Agosto. Eu recebi um forward do mail a 25 de Agosto e publiquei este post a 26. E tudo estaria bem, não se desse o caso de existir um link para a versão online do artigo na newsletter de Agosto da Penguin (como se pode comprovar aqui). Quer isto dizer que o texto já fora publicado na Internet antes de o suposto convite do The New Times ter sido anunciado. E é óbvio que o The New York Times jamais republicaria um texto de opinião nestas circunstâncias, menos ainda quando o seu conteúdo revela um grau de especulação enorme, talvez admissível no campo ficcional mas nunca nas páginas escrupulosamente vigiadas de um diário de referência.
Já lá diz o provérbio: é mais fácil apanhar um mentiroso do que um coxo. E mais fácil ainda quando o mentiroso mente mal.
‘Palavras Andarilhas’ na primeira pessoa
Aqui.
1003
Ontem, dongiovannisticamente, foram 1003 as visitas. Há que pensar em novas barreiras psicológicas.
Diário do Booker (5)

É durante a leitura do Livro Três (páginas 353 a 551) que se confirma o que a primeira parte do livro já deixava supor: quando comparado com a restante produção romanesca contemporânea, The Northern Clemency está uns bons furos acima da média. Não é um romance perfeito, longe disso, Hensher por vezes exagera na quantidade de elementos (psicológicos, sociais ou meramente geográficos) que pretende abarcar com a sua prosa elegante e meticulosa, mas há um sopro elegíaco que atravessa o livro, que nos empurra e nos faz vacilar, uma espécie de energia própria, um campo magnético activo, um je ne sais quois difícil de pôr em palavras mas que os leitores experimentados sabem ser a marca dos livros que não se esquecem ao fim de um mês.
Nesta longa secção do romance acontecem muitas coisas, grandes mudanças e crises existenciais, mas nem tentarei sequer resumi-las porque qualquer esforço para domesticar a complexidade desta trama narrativa, enfaixando-a no espartilho algo ridículo da sinopse com meia dúzia de linhas, seria tão ingrato quanto inútil. Quando avançar para a recensão do livro, tentarei dizer do enredo o que precisa de ser dito, em traços gerais, para situar a história. Se quiserem pormenores (e se os há, em avalanche) leiam directamente na fonte. Ou esperem pela tradução.
Ainda assim, deixo aqui alguns dos elementos principais. O estoicismo de Katherine vai ser posto à prova quando Nick, o antigo patrão e amante de uma só tarde, é acusado de ter montado um esquema de lavagem de dinheiro na sua loja. Chamada a depor em tribunal, a desesperada dona de casa teme que o julgamento traga à luz não tanto as golpaças de Nick, parte ínfima de uma engrenagem criminosa maior, mas sim a sua própria culpa (e tem razões para pensar isso). Hensher descreve magistralmente a forma como esta crise abala o casamento de Katherine com Malcolm. Mas melhor ainda é o retrato muitíssimo nítido do que foi a crise dos mineiros durante o governo de Margaret Thatcher, no Verão e Outono de 1984, vivida nos vários lados da barricada. Sem grande surpresa, vemos Tim, o filho rebelde dos Glover, mergulhar no activismo político: manhãs inteiras a ler Marx na biblioteca pública, t-shirts de apoio à greve dos mineiros e participação activa nos confrontos com a polícia.
É justamente uma dessas explosões de violência, à porta de uma mina de onde as autoridades «fascistas», como lhes chama Tim, tentam resgatar os trabalhadores fura-greves, que se acompanha na seguinte passagem:
«And as if in confirmation, the police – it might have been at a signal – seemed to break off their edgily cosy exchanges with the miners and, with not so much as a polite nod of farewell, drained away in one blue movement towards the gates and their heavy-sided vans. It was like the draining of a mass of water, the retreat of a sea before a tidal wave, and the miners, as if in shock and offence at the social affront, began to stand. First the miners at the front, the ones the police had been talking to, and then the whole crowd stood, rippling up the hill towards the back in a single wavelike movement. (…)
The police stand there, facing them in silence, and the men roar, and go on roaring; their weapons, if they thought to acquire them, now in their hands: half-bricks, stones, bottles, even a park railing like a javelin. They brandish them openly, and the police raise their hard plastic shields, each with a slash of sun reflected on it like a blazon.
(…) The hurling of rocks and bricks starts immediately, and even from Tim’s position the yelling, the thudding of bricks against the coaches is deafening; inside it must be terrifying. He catches himself, thinks again, yells louder. ‘Scabs! Scabs! Scabs!’ The police are moving forward, in their regimented way, pushing back the miners who are rushing forward to the vans; but the pressure is too much, the police are beeing pushed back themselves into the path of the coaches, which slow. There is redoubling of rage, fallen rocks and bricks being picked up and hurled again, and now the miners are at the sides of the vans, and starting to push and rock. In the hail of stones and rocks, Tim is pushed and pushes, the stink of – incredibly – the mineral stink of deodorant from a miner’s armpit in his nose, and all the time yelling in his ear. He is a few inches taller than most, and there are only three or four miners between him and the van’s side. All at once he sees, through perhaps a scratched-away patch of paint, a face – no, really just an eye, and one with clear terror deep in it.»
***
Vantagem de acordar, ainda de madrugada, para ler de candeeiro aceso enquanto a casa dorme: às tantas, olhar pela janela e ver o céu vermelho sobre Lisboa.
Profissão: leitor
– Então, Alice, sabes o que é que faz o teu pai?
– Sim. É ler.
Frases (feitas com títulos) dos leitores - 6
De Carlos Vaz Marques:
«Em louvor das mulheres maduras, entre os lençóis só resta o amor. O primeiro amor, a noite e o riso, a duração dos crepúsculos, a possibilidade de uma ilha, uma visão do mar e outras histórias. Lume sob cinzas, às avessas, todos os dias, combateremos a sombra: a mais nova profissão do mundo. Daqui em diante só há dragões.»
‘Existe ainda futuro no verbo ler?’
«Continuará o livro a ser necessário na presente forma? Milhares de anos passaram e mesmo com o progresso a nível de materiais e formas de fabrico um livro é o que sempre foi: palavras inscritas com pigmentos em pergaminhos, por vezes soltos, por vezes unidos em sequência, e normalmente com uma capa a revesti-las. Durante todo este tempo tem sido a mehor forma de preservar e divulgar informação entre gerações e geografias. Mas com a informática e as comunicações globais o mundo mudou, e a palavra ganhou nova forma de se exprimir. E agora fala-se em livros electrónicos, audio-livros, impressão a pedido, ficção por telemóvel, por mensagens escritas, escrita colaborativa, blogues, confessionários individuais – a lista não terminará aqui. Mas… e o livro?»
O debate está marcado para amanhã, 18h30, no auditório principal da Faculdade de Belas Artes, em Lisboa. Participam o editor Pedro Marques (Livros de Areia), Nuno Seabra Lopes (Booktailors), Paulo Ribeiro (Gailivros) e eu. O moderador da conversa, incluída no programa do Fórum Fantástico 2008, será Luís Filipe Silva.
Os corpos dos livros
Eis um blogue que se apresenta como «an ongoing photo essay on books and the bodies that love them». No fundo, é disso mesmo que se trata: de corpos. Os corpos dos livros. Os corpos dos leitores. E essa fronteira difusa em que eles acabam, começam ou se fundem uns nos outros.
Mega Ferreira na Roménia
Ontem à noite, António Mega Ferreira e João Rodrigues (Sextante) falaram com a imprensa à mesa da Bénard, no Chiado, sobre A blusa romena, o primeiro romance de Mega (ou pelo menos a primeira das suas narrativas a assumir-se como tal). O livro, de que publiquei as primeiras páginas faz hoje uma semana, vai chegar às livrarias por estes dias e tanto o autor como o editor contaram histórias engraçadas sobre a sua génese. Tudo terá começado ali mesmo, na Bénard, durante um almoço a propósito da publicação, pela Sextante, de Bomarzo, o calhamaço de Manuel Mujica Lainez que Mega andava há muitos anos «a tentar impingir a 34 editores portugueses, se é que existem 34 editores portugueses». Impressionado por João Rodrigues se ter chegado à frente, colmatando uma lacuna de décadas, Mega falou-lhe de um livro que andava a escrever desde 2002 e que estava quase terminado. Era A blusa romena, claro, ainda em bruto e «mal resolvido». Muitas voltas, emendas, reduções e cortes depois, o romance ganhou então a sua forma definitiva. Por entre digressões literárias as mais variadas, com destaque para uma defesa apaixonada da grandeza do clássico A Ilha do Tesouro, de Stevenson, o autor de O que há-de voltar a passar ficou a saber, ao mesmo tempo que os jornalistas, do interesse de uma editora romena, a Humanitas, na aquisição dos direitos do romance que nos juntava ali. Erguendo uma sobrancelha, irónico, Mega disse: «Hmmm, só não sei se eles vão gostar do retrato que eu faço da Roménia [de Ceausescu].» Ao que João Rodrigues respondeu: «Não te esqueças que se a Roménia mudou, os romenos também mudaram.» E o escritor fez que sim com a cabeça, enquanto acendia um cigarro. Afinal de contas, mais do que o interesse da Humanitas, a sua grande alegria, durante a refeição, foi descobrir que podia fumar.
Barreira psicológica
Ontem, pela primeira vez, este blogue ultrapassou a fasquia das mil visitas num só dia. Foram exactamente 1028 (correspondendo a 2102 pageviews). Aos leitores, um agradecimento sincero e uma vénia setecentista.
Uma cidade entre o cérebro e o coração

Paris
Autor: Julien Green
Título original: Paris
Tradução: Carlos Vaz Marques
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 128
ISBN: 978-972-8955-75-5
Ano de publicação: 2008
Logo no início de Paris, pequeno livro tão belo quanto discreto, Julien Green recorda-nos uma evidência: «A alma de uma grande cidade não se deixa apreender facilmente; é preciso, para se comunicar com ela, termo-nos aborrecido, termos de algum modo sofrido nos lugares que a circunscrevem.» Julien Green, nascido com o século XX no 17.º bairro, teve muitas oportunidades para se aborrecer e sofrer em Paris, como aliás qualquer parisiense que conheça a sua cidade para além das glórias óbvias e do esplendor de postal ilustrado. Talvez por isso, o escritor abdica rapidamente de dizer «uma palavra a respeito dos grandes monumentos e de todos os lugares acerca dos quais se esperaria uma descrição como deve ser». Alguém falou em Torre Eiffel? Esqueçam. Green sempre lhe teve um ódio de estimação e sonhava mesmo eliminá-la, deixá-la longe da vista, debaixo de água. A Paris que lhe interessa não é a oficial, não é a que vem nos guias. É a outra, a «cidade secreta», vedada aos turistas e mais inacessível do que em tempos foi a mítica Timbuctu.
Nestes ensaios breves, Green escreve sobretudo para si mesmo. Não se trata de revelar aos outros os tesouros escondidos de Paris (embora algumas pistas sejam preciosas), mas antes de reencontrar as muitas aproximações que fez, durante décadas, ao lugar onde nasceu. Uma espécie de arqueologia sentimental, com alguns ditirambos nostálgicos mas nunca abusando do pathos. A sua Paris está sempre a migrar «imperceptivelmente da carne para o espírito». Começa por ser uma «enorme massa de pedra» para logo se transformar em cosa mentale, cenário de um romance por escrever, «mundo interior» autónomo, uma presença «quase sobrenatural». O mais importante, para Green, é colocar-se no sítio certo: «Estar sentado ao colo do modelo que nos propomos pintar nunca me pareceu a posição ideal. Por mais pequeno que seja o recuo, já é uma conquista.» E esse recuo tanto pode ser geográfico (escrever sobre Paris em Copenhaga ou Nova Iorque) como cronológico (lembrar-se de como era o bairro de Passy nos anos da infância, há mais de quatro décadas).
O fio condutor do livro está numa atenção obsessiva aos pormenores que escapam a um primeiro olhar. Pode ser a «graça robusta» de uma pequena igreja românica (a de São Julião, o Pobre); a nobreza das árvores que ainda vão subsistindo depois de todos os abates; as escadas e escadarias (subindo em espirais que fixam uma «ideia de perseguição» ou descendo em degraus de pedra até ao rio); uma tempestade sobre o Palais-Royal; cenas de miséria humana; os castanheiros iluminados «de dentro para fora» como lanternas japonesas; o céu cinzento; a brancura de Notre-Dame; as ruínas do Trocadéro; ou as estátuas que espiam, lá de cima, «as nossas atitudes incompreensíveis». Green é sobretudo um flâneur perscrutador e baudelairiano, «propenso a certas formas de divagação» que me parecem, vistas deste lado, milagres de escrita.
Na juventude, ele começou por ver em Paris a forma de um cérebro humano. Mais tarde mudou de ideias: «Agora já não seria a um cérebro que eu compararia Paris, mas a um coração, um coração deitado, atravessado pela sua grande artéria, o Sena.» É justamente entre o cérebro e o coração, entre a racionalidade neutra e o fervor de quem ama a sua cidade como se ama uma pessoa, que estas prosas magníficas se insinuam.
A tradução de Carlos Vaz Marques é excelente: fluida, cuidada, com oportunas notas de rodapé. Para ser exemplar, só falta a este trabalho editorial uma referência, breve que fosse, ao facto de Paris recolher textos escritos por Green entre 1943 e 1983 (ano em que o livro foi publicado pela Champ Vallon, na colecção «Des Villes»). Pior do que isso: a nota biográfica final sugere, erroneamente, que a obra surgiu em 1991, quando essa data corresponde apenas à edição norte-americana (pela Marion Boyars, de Nova Iorque).
Avaliação: 9/10
Um parisiense americano
Julien Green nasceu em Paris (1900), morreu em Paris (1998), habitou em Paris durante a maior parte da sua vida e escreveu quase toda a sua obra na língua de Molière. Ainda assim, nunca se tornou cidadão francês. Filho de pais norte-americanos, manteve-se norte-americano até à morte. Em 1971, distinguiu-se por ser o primeiro «não-francês» a entrar para a Academia Francesa, onde ocupou a cadeira 22 (substituindo o falecido François Mauriac). Um ano mais tarde, o Presidente da República Georges Pompidou ofereceu-lhe oficialmente a cidadania francesa. E ele recusou. Na história de Paris, contudo, não terá havido muitos parisienses mais parisienses do que este homem que escreveu: «Cada um de nós traz em si a Paris da sua infância, da sua juventude e dos seus sonhos, com uma secreta preferência pela Paris que guardou na memória e que lhe parece mais bela que a do próximo» (pág. 42).
[Textos publicados no suplemento Actual do Expresso]
‘Gatos Comunicantes’ no museu
O livro Gatos Comunicantes – Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny (1952-1985) vai ser apresentado amanhã (18h30), no auditório da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, por Perfecto E. Cuadrado (um dos maiores especialistas no estudo do surrealismo português) e pela professora universitária Helena Barbas.
Os actores João Grosso e Teresa Lima lerão algumas das cartas.
Frases (feitas com títulos) dos leitores - 5
De António Gregório:
«Amanhã na batalha pensa em mim, Lolita.»
Lições de jardinagem
A Carla Maia de Almeida acaba de abrir os portões do seu Jardim Assombrado. Lá em cima, por entre os ramos do jacarandá, um verso de Herberto: «Ter amoras, folhas verdes, espinhos com pequena treva por todos os cantos.» Ao correr dos dias, haverá «livros, escrita, pessoas, personagens, animais, lugares, pequenos prazeres e coisas que fascinam».
Vantagem em relação aos jardins verdadeiros: este não fecha, pode ser visitado a qualquer hora.
Lançamento do primeiro romance de Manuel Halpern
O jornalista Manuel Halpern, crítico de música e cinema do Jornal de Letras (recém-chegado do Festival Hay, em Segóvia, que foi relatando aqui), lança esta noite, pelas 22h00, no Bairro Alto Hotel (Lisboa), o seu romance de estreia: Fora de Mim (Caderno). A obra será apresentada por Carlos Vaz Marques e a festa contará com vários DJ’s que criarão uma espécie de banda sonora para o livro. Manuel Halpern, diga-se, será um desses DJ’s.
Segundo a editora, Fora de Mim é «um romance repleto de aventura, êxtase e suspense» sobre «a impossibilidade do amor num tempo em que todos os amores são possíveis».
Dois poemas de José Rui Teixeira
A profecia descia a rua como a luz a oriente em manhãs douradas e pousava sobre uma caixa onde Zerbino guardava búzios e dedos amputados. Se cerrava os olhos, via uma mulher pela qual lutariam até à morte homens piedosos e honrados; lutariam até à morte para exibi-la como um troféu de caça; na intimidade, marcá-la-iam com os dedos no flanco. Zerbino amava-a cheio de compaixão, como se amam pêndulos e planisférios.
***
Durante muito tempo errou na periferia de poços e taludes. Cresceram-lhe êmbolos no abdómen como fúcsias na densidade de Maio. Durante muito tempo Zerbino fugiu da crueldade de homens piedosos. Amava ainda Deus com todo o seu coração, como se amam cães sem dono ou mulheres silenciosas. Caim matara o justo Abel por esses dias, mas Zerbino nada sabia sobre a ciência circunscrita dos venenos ou a hermenêutica das máscaras.
[in Zerbino, Cosmorama, 2008]
Diário do Booker (4)
Já chegou a segunda remessa da Amazon. Agora só fica a faltar o Sea of Poppies, de Amitav Ghosh. O dono da mercearia do rés-do-chão, onde o carteiro costuma deixar as encomendas que não cabem na caixa do correio, olhou para mim ainda mais admirado do que é costume: “Ena, isso é que é peso. Qualquer dia têm que instalar um monta-cargas no prédio só para você” (frase dita com um ligeiro sotaque brasileiro, que o Sr. João viveu nos arredores do Rio mais de 30 anos).
***

Ontem a leitura não avançou muito, porque tive que dar prioridade ao último número da revista Relâmpago, sobre a qual vou escrever para o Expresso. Ainda assim, cheguei à página 450 e estou a meio de um dos clímaxes dramáticos do livro.
Fogo posto
A casa de Martin Rynjia, proprietário da editora independente Gibson Square, que vai lançar a 30 de Outubro o polémico romance The Jewel of Medina, de Sherry Jones, foi alvo de uma tentativa de fogo posto no último sábado. Além de não publicar uma narrativa literariamente fraca (segundo a opinião dos seus consultores), também foi disto que o Manuel Alberto Valente se livrou.
Marketing inventivo
A Dom Quixote enviou-me a nova edição de O Deus das Moscas, de William Golding, dentro de um mosquiteiro onde jaziam, com as asas partidas, umas quantas moscas de plástico.
A livraria do século XXI
Será que as livrarias devem temer a difusão cada vez maior dos sistemas de leitura digitais (Kindle, Sony, Plastic Logic, etc.)? Para Audrey Williamson, que analisa aqui um relatório da SLF (Sindicato das Livrarias Francesas) e da Alire (Associação das livrarias informatizadas e utilizadoras de redes electrónicas), mais do que ter medo, os livreiros devem adaptar-se o mais rapidamente que puderem ao novo paradigma. E termina com um sinal de esperança: se antes desta revolução em curso «as livrarias não podiam armazenar todos os livros nas suas lojas», em breve «vão poder vender, na forma digital, qualquer livro que exista».
‘Para Cima e não para Norte’ (o booktrailer)
Eis um vislumbre do primeiro romance de Patrícia Portela, até agora mais conhecida pelos seus trabalhos dramatúrgicos. Pela amostra, estamos algures entre Gonçalo M. Tavares e Edwin Abbott Abbott (o autor de Flatland, livro transdimensional que inspirou a Patrícia Portela uma trilogia de espectáculos, o primeiro dos quais justamente intitulado Para Cima e não para Norte). O livro, editado pela Caminho, tem saída prevista para Outubro. E promete. Promete muito.
Pessoa & Machado de Assis
E se Fernando Pessoa tivesse escrito cartas ao autor de Dom Casmurro, como seriam? Talvez assim, como Paulinho Assunção as imagina.
Prémio Fernando Namora/Estoril Sol para Mário Cláudio
O romance Camilo Broca, de Mário Cláudio, editado pela Dom Quixote, venceu por unanimidade o Prémio Fernando Namora/Estoril-Sol, no valor de 25 mil euros. Presidido por Vasco Graça Moura, o júri juntou Guilherme d’Oliveira Martins (Centro Nacional de Cultura), José Manuel Mendes (Associação Portuguesa de Escritores), Maria Carlos Gil Loureiro (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas), Manuel Frias Martins (Associação Portuguesa dos Críticos Literários), além de Maria Alzira Seixo e Liberto Cruz (convidados a título individual) e Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu (em representação da Estoril Sol).
Frases (feitas com títulos) dos leitores - 4
Muito ao seu jeito, o Francisco Frazão também respondeu ao repto.
Uma das frases mistura livros de Eduarda Dionísio e Jorge Silva Melo:

«Comente o seguinte texto: “António, um rapaz de Lisboa, prometeu deixar a vida antes que a noite venha. O fim? As histórias não têm fim.”»
A outra só podia vir de um cinéfilo:

«L’Analyse des films: le champ aveugle le fantôme de l’opéra; devant la recrudescence des vols de sac à main, l’homme ordinaire du cinéma voyage au bout de la nuit.»
E lá foi o Francisco buscar o Daney à estante.
Uma fraude chamada Luís Miguel Rocha
Há pouco mais de um mês, reproduzi aqui uma informação veiculada pelos serviços de “assessoria” (whatever that means) de Luís Miguel Rocha, autor de O Último Papa, segundo a qual o The New York Times teria convidado o escritor português a escrever um artigo de opinião sobre a morte do Cardeal Albino Luciani (João Paulo I), tema do seu livro. A publicação aconteceria na última semana de Setembro, “por altura dos 30 anos da morte” de Luciani. Ou seja, hoje. Na altura, concordei com alguns dos comentadores que levantaram sérias dúvidas sobre tudo o que diz e faz Rocha, uma figura obscura, saída não se percebe bem de onde e que se calhar até nem é um testa-de-ferro mitómano e burlão, mas parece mesmo um testa-de-ferro mitómano e burlão.
A prova dos nove, disse eu então, poderíamos tirá-la no fim de Setembro. E foi isso que fiz agora mesmo. Vasculhando a edição de hoje, 29 de Setembro, do The New York Times, não encontrei o mínimo vestígio de Luís Miguel Rocha ou do artigo de opinião sobre a morte do Papa João Paulo I. Rocha evoca os 30 anos da morte do Cardeal Luciani no seu site, mas nem se dá ao trabalho de explicar o que terá acontecido ao suposto texto encomendado pelo NYT, tal como nunca explicou outras promessas bombásticas que ficaram por cumprir.
Disto tudo, o que se retira é que Luís Miguel Rocha mente descarada e repetidamente. É, em todos os sentidos da palavra, uma fraude literária. Uma fraude literária à espera que alguém se dê ao trabalho de o desmascarar de vez.
Centenário da morte de Machado de Assis
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Faz hoje cem anos que morreu um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos (se não o maior): Joaquim Maria Machado de Assis. Na Casa Fernando Pessoa, está neste momento em curso a leitura integral do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, cujo registo gravado será oferecido à Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO). A sessão, aberta ao público, teve início às 10h00 e só deve acabar pelas 18h00, pelo que ainda pode chegar a tempo dos últimos capítulos.
Há ainda um Colóquio Machado de Assis, organizado pela Fundação Gulbenkian (hoje e amanhã), a que a Isabel Coutinho está a assistir e de que vai dando conta no seu blogue.
Um escritor português on the road nos EUA
Durante uma semana, António Lobo Antunes andou em digressão promocional pelas terras de Barack Obama e John McCain. Hoje, no suplemento P2, do Público, o jornalista e escritor Rui Cardoso Martins conta na primeira pessoa a viagem bem sucedida, por Nova Iorque, Boston e Washington, do autor de What Can I do When Everything’s on Fire?. Eis um excerto:
«O editor de Lobo Antunes, o imparável Bob Weil, da Norton, talvez a mais prestigiada editora independente americana, gritava na sala cheia da New York Public Library (NYPL) que, no dia em que leu a segunda cópia da tradução, ele que já leu e publicou dos melhores,
- Fiquei literalmente, mas literalmente, blown away [siderado, estraçalhado...], como não aconteceu com nenhuma outra obra de ficção com a qual tivesse trabalhado antes, senhoras e senhores!
Se falarmos com Bob Weil vemos logo que ele não tem exactamente uma vida sua por detrás dos óculos, dos passinhos rápidos, da saqueta de livros a tiracolo para distribuir como um ardina.
- Bob, sabe de alguma coisa interessante a acontecer, um espectáculo em Nova Iorque…?
- Eu só faço livros.
Para o ano publicará mais um livro de crónicas de Lobo Antunes, é o que ele faz. Na New York Public Library, ouvi Bob entusiasmar-se e apontar para What Can I do When Everything’s on Fire?, a tradução de Que Farei Quando Tudo Arde? (ed. Dom Quixote, Portugal). Quatro ou cinco anos nas mãos de Gregory Rabassa, que universalizou em inglês García Márquez, Cortázar, Vargas Llosa, Lezama Lima, etc. O velho professor tem 86 anos e um laço de seda ao pescoço, adora Nova Iorque mas ainda vai a todo o lado, e suspira
- Mestre António…
quando se abraçam. Traduziu Fado Alexandrino e As Naus, antes deste.
Na contracapa do livro, George Steiner, um dos cérebros lúcidos do mundo, chama génio ao português. E Harold Bloom, o mais famoso crítico literário: “Este é um extraordinário romance de um dos escritores vivos que mais importância terão no futuro. Lobo Antunes escolhe manifestar a sua dívida a Freud, Joyce, e Faulkner, à superfície, mas nas profundezas é um grande original.” E acrescenta que o livro é uma visão negra da realidade, e cruel, que vai deixar a sua marca nos leitores por todo o lado… palavras para quê?
Vi Paul Holdengraber, director de programas da Biblioteca Pública de Nova Iorque (NYPL), numa semana em que outros convidados de honra seriam Paul Auster e Spike Lee, tentar tirar de Lobo Antunes mais coisas do que ele queria dar nessa noite, mas cada vez mais divertido com os exemplos e paradoxos que ouvia do escritor:- Descobri o que é a democracia com La Fontaine. Um cão pode olhar um bispo. Eu nasci num país em que só o bispo podia olhar o cão.
ou
- A polícia política era tão estúpida que apreendia as obras de Lenine e de Estaline e guardava-as no meio de Racine.
ou
- Portugal não é Europa, é um lugar estranho. Gosto das mulheres portuguesas, pequeninas, de bigode.
e
- Não sou um homem modesto, mas sou humilde. Sou uma galinha que guarda os seus ovos.
e
- O que é a história num bom livro? Anna Karenina: uma mulher tem um marido aborrecido, começa a dormir com outros homens e… olhe!
- Nunca tinha ouvido o resumo de Anna Karenina de forma tão concisa, vou recomendá-lo aos estudantes de liceu, concordou Paul Holdengraber.
- Então e a história de Ulisses, da Odisseia? “Chego tarde a casa”.
E todos riam, porque além disso
- Comecei a escrever por causa do Mickey Mouse, do Flash Gordon, do Sandokan, aos cinco.
Até que, por falar em cinco anos, e quase de repente, contou do hospital de crianças cancerosas onde trabalhou depois de voltar da guerra de Angola e de como nesse hospital se zangou com Deus, apesar de não ser um homem religioso. Estava lá um miúdo de cinco anos com leucemia, muito bonito, de olhos grandes e, na sua opinião, Deus não tem o direito de pôr uma criança a gritar por morfina. O rapaz morreu e vieram dois homens com uma maca, mas como o morto era muito pequeno, bastou um homem enrolá-lo num lençol e levá-lo ao colo pelo corredor, mas um pé da criança saiu do lençol e ele viu o pé afastar-se, balançando no ar.
- Nesse dia decidi: vou escrever para aquele pé.
Talvez já tenham visto uma plateia de nova-iorquinos, professores, académicos, leitores, intelectuais, as pessoas mais cosmopolitas do mundo, a engasgarem-se nas próprias salivas silenciosas. E Paul Holdengraber é um orador nato, um conversador de resposta pronta. Uma hora antes tínhamos visitado a sala de leitura. Por baixo de nós, sete andares subterrâneos com 52 milhões de livros. Quarenta funcionários invisíveis nas caves, a carregar vagõezinhos como no tempo do carvão. Mas há um sistema hidráulico e de ar comprimido para os livros chegarem à superfície rapidamente. E computadores pessoais abertos em cima das mesas não fazem mal aos livros.
António lia uma inscrição dourada por cima da porta, na madeira, onde se dizia que um bom livro é o precioso sangue da vida do espírito, que nos poderá levar para uma vida para além da vida. Nunca ali tinha estado e disse ao director:
- Para mim isto é o paraíso.
- Sim.
E discutiram Borges.»
O resto é para ler em papel (ou aqui). Ler mesmo. Reportagens assim não aparecem por aí todos os dias.
Diário do Booker (3)

No Livro Dois (pág. 163 à pág. 303) assistimos aos vários estilhaços da cena capital da primeira parte: aquela em que Katherine espezinhou a cobra do filho, libertando nesse acesso de raiva uma série de tensões acumuladas durante anos de uma felicidade familiar que não passava, como em tantos outros casos, de um simulacro.
Entre os Glover, o mais afectado foi, previsivelmente, o pequeno Tim. Na escola, torna-se agressivo, participa em estranhos jogos de violência entre rapazes (com qualquer coisa de bullying à mistura) e mantém uma relação obsessiva com um colega que parte uma perna num desses jogos, descobrindo-se no hospital que a fragilidade do osso é sinal de uma doença sem cura. Visitando-o todos os dias, Tim quer acompanhar, com um interesse mórbido, o trabalho da morte num corpo demasiado jovem.
Quanto a Katherine, acaba por concretizar o adultério que começou por a destruir quando era apenas uma ameaça, uma possibilidade. A quimera romântica desfaz-se no próprio instante em que deixa de ser uma quimera e isso levanta-lhe um peso de cima, permitindo a recuperação gradual do contacto com os outros, principalmente com Alice Seller, a nova vizinha que a apoiou no dia do descontrolo, que ouviu as suas confidências em estado bruto e que por isso mesmo (pela vergonha de se ter exposto daquela maneira) deixara de conseguir olhar de frente, olhos nos olhos.
Fora isso, assistimos à dificuldade de integração escolar dos vários miúdos e à amizade estranha (feita só de passeios juntos no regresso a casa) entre o rapaz mais velho dos Glover, Daniel, e a rapariga mais velha dos Seller, Sandra. Há também cenas que tornam mais definido o contorno de certas personagens, como Anthea Arbuthnot, a bisbilhoteira-mor da rua, fanática pela Família Real (ao ponto de ter ido a Londres assistir aos principais casamentos e funerais de Estado); Jane Glover, que decide tornar-se vegetariana militante, só para chatear; ou Malcolm Glover, o marido desconfiado que foi incapaz de desaparecer quando supôs que a mulher lhe era infiel. A qualidade da escrita mantém-se, mas Hensher não precisava de se di


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